Palavras de João Faria Borda (já falecido), um homem que passou dezasseis anos e três meses no Campo de Concentração do Tarrafal, que foi uma das mais sinistras criações do regime a que a Revolução de 25 de Abril pôs termo.
« O Tarrafal é uma prisão política que temos de pôr ao lado de Aljube, Peniche, Caxias, Angra do Heroísmo. Não foram só os presos do Tarrafal que sofreram mas sim milhares de antifascistas vítimas das prisões por onde passaram.
Mas o Tarrafal tinha um aspecto mais duro e violento: o isolamento. Os presos estavam meses e meses sem receber correspondência.
Devido a ter participado numa tentativa de fuga colectiva em 2 de Agosto de 1937, a qual falhou por razões imprevisíveis, fui castigado em seis meses sem correspondência. A minha mãe morreu em Julho mas só vim a sabê-lo em Novembro, passados portanto mais de quatro meses.»
«Todos os directores do Tarrafal, embora com características diferentes, tinham algo em comum: todos eram carcereiros e agentes do fascismo. Conheciam as técnicas nazis e usavam-nas.
João da Silva usava uma técnica frequentemente: fazer promessas junto dos presos menos preparados, enquanto paralelamente redobrava a violência junto dos mais firmes.
Todos os directores do Tarrafal procuraram reduzir, com mais ou menos intensidade consoante a situação política nacional e internacional, a capacidade de luta dos presos. Nenhum deles estava interessado em que estes fossem restituídos à liberdade. Todos pretendiam a aniquilação física e política dos homens que torturavam. Mas não o conseguiram.»
Impressionante retrato do fascismo numa das suas mais terríveis acções de destruição do ser humano!
Afixado por: Inês em abril 23, 2004 11:49 PM